Dias depois de socorrer um motoqueiro atropelado e estirado no asfalto, saí para passear com meu idoso vira lata recém adotado. Ele é visivelmente lesado. Magro, manco, descoordenado e qualquer um que enxergue um palmo a frente percebe as incapacidades do Kino. Estávamos na calçada, bem no cantinho para não atrapalhar os pedestres, caminhando no ritmo do Kino, que empaca, desequilibra e às vezes até caí. Ao longe vi duas mulheres praticando cooper. Uma mais velha, na casa dos 50 anos, e a outra bem mais jovem. Ambas fora de forma. Quando percebi que a intenção da mulher mais velha era não desviar da gente. Parei no canto da calçada, rente ao muro e fiquei ali quieta com o Kino. A mais nova desviou e passou ao meu lado. Já a mais velha cismou que não desviaria e passou literalmente em cima do Kino, pulando e se espremendo. Aquilo me deu uma certa inconformidade, mas fui adiante. Atrás de mim a mulher falou em voz alta: “Mas tem gente que não tem educação mesmo!” Me virei e respondi: “ Minha senhora, eu estou recuperando esse cão. Ele é velho e doente. Não daria tempo de abrir passagem para a senhora.” E ela retrucou: “Eu não sabia, né!” Mas é só tirar o nariz do umbigo e olhar para frente que é notável a debilidade desse cão! E então a mocinha que estava com ela disse num tom muito agressivo: “Mas GENTE tem preferencia, né?” Sou tranqüila, mas TUDO tem limite nesta vida... Então a bruxa baixou em mim e num tom enérgico eu disse: “Fofa, mau humor libera toxinas que engordam. Não adianta você ficar esbaforida de correr, com esse seu humor. É por isso que você está obesa e feia.” Quando acabei de falar as duas vieram para me bater. Era óbvio que eu ia apanhar muuuuuuito. Primeiro porque nunca briguei “de mão”, segundo porque elas são bem maiores que eu, terceiro porque elas eram duas e em quarto porque eu ia proteger o Kinão a qualquer custo. Me virei, empinei o peito e segui meu caminho pedindo proteção a Nossa Senhora Protetora das Bruxas Véias. Como a minha santa é forte, ela enviou a “turma do deixa disso”. De repente lá estavam, para me defender dois homens, que nunca tinha visto e uma vizinha que me viu acalmar o motoqueiro dois dias antes. A vizinha dizia: “Mas que absurdo!!!! Ela é tão boa, ajudou o moço atropelado, pegou esse cão morrendo na rua e vocês patricinhas, que não fazem nada da vida, arrumam encrenca com ela? Vai lavar roupa minha senhora!” E os três anjos da guarda me acompanharam até um lugar seguro. Por pouco quem fica estirada no asfalto era EU...
Vera Costa
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